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Impactos da crise global na hotelaria

Cristiano Vasques

Mais uma vez, apenas três anos após o início da crise bancária nos países desenvolvidos, o Brasil se depara com o receio de uma nova recessão global e de seus impactos na nossa economia. No campo da hotelaria a apreensão é a mesma, como a crise vai nos afetar?

Ninguém tem a capacidade de prever o futuro, mas compreender a essência da crise atual e olhar o comportamento do mercado em 2009 pode ser útil para conhecer os cenários que a hotelaria brasileira deve enfrentar.

Do que se trata essa crise?

De certa forma, os principais elementos da crise atual são desdobramentos da crise de crédito de 2008-09. A bolha imobiliária e o extensivo uso de derivativos financeiros geraram inadimplência de mutuários, empresas e grandes bancos. Como resultado, se espalhou a crença que o sistema financeiro poderia entrar em colapso.

Os principais países desenvolvidos decidiram resgatar empresas e bancos que se encontravam em situação delicada, assumindo pesadas dívidas públicas. Atualmente, a situação é especialmente crítica na Europa, já que Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália enfrentam sérios problemas fiscais ou de endividamento. A crise atual, enfim, é resultado direto das dificuldades desses países em rolar suas imensas dívidas e de pagar seus credores.

Essa situação irá exigir fortes ajustes fiscais e deve trazer recessão no curto prazo. A recuperação, por sua vez, deverá se iniciar no médio prazo, e espera-se que seja longa e lenta.

As consequências para o Brasil e a hotelaria

A crise da dívida europeia “coroou” um ano especialmente complicado do ponto de vista econômico. Também contamos com as catástrofes no Japão, a Primavera Árabe e seu efeito no preço do petróleo e a quase moratória da dívida americana causado por sua crise política.

De fato, parte do cenário desfavorável já atingiu a economia nacional ao longo de 2011, em especial no 2º semestre. No entanto, segundo a prévia do Panorama da Hotelaria Brasileira publicada no último Boletim HotelInvest, se viu estabilidade da demanda e forte crescimento de RevPAR (16,5%) no 3º trimestre.

O que isso significa? A resposta do mercado em 2009 nos oferece algumas ideias: houve uma queda de demanda no 1º semestre, fruto de uma atitude de precaução frente à crise, seguida por uma leve e consistente retomada ao longo do 2º semestre. Como a oferta permaneceu praticamente constante, no agregado do ano a pequena queda do número de pernoites gerou uma taxa de ocupação apenas ligeiramente menor. As diárias, no entanto, já haviam sido negociadas e aumentadas acima da inflação. E, assim, o RevPAR cresceu em relação ao ano anterior.

A chave da questão, no caso de 2009, foi que a oferta permaneceu constante e a demanda se recuperou rapidamente. Com a economia retomando seu ritmo de crescimento, a demanda e as diárias continuaram subindo em 2010, consolidando a recuperação na hotelaria.

Para 2012 também não há previsão de aumento considerável da oferta na maior parte dos mercados. Além disso, ainda se vê hotéis lotados diversas vezes ao longo do ano, indicando demanda maior que a oferta disponível em inúmeros momentos.

Essa situação parece indicar que o mercado hoteleiro está a reboque da crise. A economia brasileira e a demanda por hospedagem vão depender de: (i) a economia dos EUA consolidar a retomada do crescimento observado no final de 2011 e; (ii) a Europa equacionar seus problemas sem comprometer sua capacidade de crescimento por um longo período. Os cortes na taxa de juros básica (SELIC) devem estimular a economia brasileira, mas parecem coadjuvantes do cenário externo.

Em suma, se não houver uma temida catástrofe econômica global, a demanda irá continuar alta e veremos bons índices de crescimento de RevPAR. É possível que em 2012 a hotelaria brasileira continue sorrindo.